Porque sabes que eu estou aqui. Porque eu sei que me sabes ler no silêncio.
Segunda-feira, 26 de Julho de 2004
José Luís Peixoto- ANTÍDOTO
O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim. Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Passou muito tempo desde que me deixaste sozinho entre as sombras que se confundiam com a noite. Noutras noites, olhámos para a lua. Nesta noite, não olhámos para a lua. Noutras noites, olhámos para a lua e enchemo-nos de desejos. Nesta noite, não olhámos para a lua e sofremos. Noutras noites, olhámos para a lua e não sabíamos o que era sofrer. Escuridão e esperança. Na lua, víamos mais do que o reflexo daquilo que queríamos inventar: os nossos sonhos. Víamos um futuro que era maior do que os nossos sonhos e que nos envolvia e que nos puxava para dentro de si. Nós sabíamos que nos esperava algo muito maior do que aquilo com que podíamos sonhar. Estávamos enganados. Aqui, sobre estas pedras que brilham, sob estas lágrimas no meu rosto, sei que nos enganámos e sei a lâmina infinita de uma faca.


publicado por SigurHead às 20:16
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

Quarta-feira, 14 de Julho de 2004
Al Berto - Incêndio
 
Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia.
Sentas-te e debruças-te para o caderno de capa preta. O silencio arde por toda a casa. Abres o caderno onde sepultaste, há dias, umas quantas palavras. E ao abri-lo caem as imagens sobre a mesa. O caderno volta a ficar branco. O caderno, a nocturna memória do mundo, a vida. Tudo branco como a morte.
Nenhum corpo cresce, nenhuma sílaba ficou esquecida no papel, nenhum eco do coração.
Sentado como se estivesses sentado sobre o mar, escutas o lento bater nos confins dos ossos. Mas já nada tremula na luminosidade plúmbea do dia. Nada se acende, ou apaga nos céus.
O dia afoga-se lentamente, na treva do mar.
Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar teu corpo.
A vida como sabes tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos. Areia rápida e branca. Esvoaçante.
Agora, a ausência, a tua é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos.
Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele.
Páras de escrever. Recostas-te na cadeira e murmuras: da paixão ficou o estremecimento de terra nos teus dentes, e a sombra de um nome rasgando o crepúsculo.
Fechas as pálpebras. O canto ergue-se nítido, sobe ao encontro da boca.
A teu lado está morto. Inerte e desprotegido  dentro do poema que há-de vir.
Tocas-lhe, como se ainda se escoasse vida no seu sangue. Mas no cimo da penumbrosa montanha inicia-se o degelo. Abres os olhos, pousas a mão no papel, escreves.
Tocar a luz, qualquer luz, não consegue ressuscitar nada. Sílaba a sílaba tudo continua imóvel. Mesmo quando as palavras se agitam e são voláteis, cortam a respiração  ou quando são vegetais e largam um fio de seiva quente na língua.
Porque é do silencio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema.
A febre desperta o desejo. Uma asa do anjo incendeia-se, desprende-se do corpo  estilhaça-se no éter da paisagem.
A pouco e pouco, acordas. Ouves o assustador rumor das águas e dos astros. O calor sufoca-te.
Continuas a não pressentir o fim do corpo. Anotas: falo da ultima morte para melhor celebrar a vida.
O dia esvai-se quando, nos céus, se enchem de fogo os olhos vazios da noite.


publicado por SigurHead às 11:52
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

Terça-feira, 13 de Julho de 2004
Margarida Antunes, Nunca te disse
"Nunca te disse mas, no fim da prática, quando as luzes se apagam e o escuro silencioso da sala convida ao recolhimento dos sentidos, quando o corpo deve libertar-se da sua forma física e do peso que o dia lhe acrescentou, devemos procurar a paz de uma praia idílica, o meu corpo indefinido encaixa-se, como uma aranha abraçada à sua presa, na ternura quente do teu colo numa noite de luz amarela. Talvez um dia te diga ou talvez nunca te conte. Quem sabe se o amor não é este contentamento secreto de nós no outro. Esta praia idílica no teu corpo onde o meu ganha forma."


publicado por SigurHead às 08:22
link do post | comentar | favorito
|

Sexta-feira, 9 de Julho de 2004
Albert Plá

 

Yo quiero que tú sufras lo que yo sufro
Y aprenderé a rezar para lograrlo
Yo quiero que te sientas tan inútil
Como un vaso sin whisky entre las manos
Y que sientas en tu pecho el corazón
Como si fuera el de otro y te doliera
Yo te deseo la muerte donde tú estés
Yo quiero que tú sufras lo que yo sufro
Yo quiero que te asomes a cada hora
Como un preso aferrado a su ventana
Y que te sean las piedras de la calle
El único paisaje de tus ojos
Yo te deseo la muerte donde tú estés
Por Dios que aprenderé a rezar para lograrlo
 


publicado por SigurHead às 00:42
link do post | comentar | favorito
|

Sábado, 3 de Julho de 2004
Possidónio Cachapa in, "O mar por cima"
...Obrigado, porque foste tu que me o deste. Obrigado, porque tem uma árvore igual àquela onde nos entendemos, eu e tu. Eu mais que tu, que tens o corpo virado para a saída. É o desenho do sítio onde eu gostava de te dizer que te amo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. Mesmo se não posso. Ainda assim, trazeres esta árvore é como se me permitisses dizer-to.


publicado por SigurHead às 11:31
link do post | comentar | favorito
|

Allen Ginsberg

 

América dei-te tudo e agora não sou nada
América quando acabaremos com a guerra humana?
América eu era comunista quando criança e não me arrependo
América, estou a falar contigo
Passa a tua mão pela minha cabeça que eu sou a América
América tudo isto é muito sério
América será que isto está certo?
Estou a falar sozinho de novo América.
 


publicado por SigurHead às 11:20
link do post | comentar | favorito
|

Sexta-feira, 2 de Julho de 2004
...
                                    
 
Não vou perguntar porque voltas-te, acho que nem mesmo tu sabes, e se eu perguntasse irias sentir-te obrigado a responder, e respondendo darias uma explicação que nem mesmo tu sabes qual é. Compreende, não há uma explicação? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, tu também sabes, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que o silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar porque te foste, se sabias que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que se construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo.


publicado por SigurHead às 23:58
link do post | comentar | favorito
|

pesquisar
 
Junho 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

Apenas quando o mundo nos...

Anoitece devagar

Mas comigo era diferente....

Tanto para te dizer

...

Não digas a ninguém

Dei-me sempre mais do que...

Luminoso afogado

Roída a dor muda

Antídoto

arquivos

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

links

Free Website Counter
Indicador de Status