Porque sabes que eu estou aqui. Porque eu sei que me sabes ler no silêncio.
Domingo, 9 de Janeiro de 2005
Era a minha vez
Hoje pensei em ti, ao passar casualmente nos lugares comuns onde coexistíamos felizes. Tu à tua maneira e eu à minha. No jardim de betão que a tanto assistiu entre nós. Nos nossos sítios. Sim, foram nossos. Por breves segundos semicerrei os olhos e recordei-te. Sereno como nunca, num sonho perdido. O meu sonho perdido. Continuo agora com o pensamento em ti reflectindo hipoteticamente todos os ses em nós, no passado, no presente, no não futuro. Amar é perder, agora sei. Amar é amar tanto que não interessa com quem. Dizer que és livre como o vento para partir sem rumo e voltar apenas quando te cansares do mundo e dos amantes, quando a vida não tiver mais segredos, quando te sentires só, quando o teu coração pensar em mim e apertar, eu estarei por aqui e não serei uma amarra. Tiro uma passa mais prolongada, esmago o cigarro no desterro do cinzeiro, cheio de beatas e cinza, cinza desfeita como eu. Aquele que conheceste não era eu, esse não sabia. Amava demais. Não pensava nos custos nem nas consequências, magoou-te tantas vezes que perdeu a conta. Hoje cresceu e ainda te ama. Amar, agora sei. A nossa música não toca mais, passou de moda. Tudo o que resta do amor de outrora, dos teus sorrisos abertos no escuro, do veludo da tua face morna na palma da minha mão, são os sons abafados num canto da memória, sons velhos, quase inaudíveis, como vinil gasto de discos esquecidos de 45 rotações. Não é justo, eu sei. Mas também não há sitio nenhum no mundo onde esteja escrito que o amor tenha que ser justo ou condescendente com toda a gente que acredita nele. Mesmo assim esperei. Esperei o meu lugar na fila como qualquer outro espera. A minha vez havia de chegar inevitavelmente, pensava. E era a minha vez, acreditava. Era a minha vez de tentar mostrar-te que o mundo não precisava de ser imperfeito, que o amor pode existir entre duas pessoas, apesar de diferentes e estranhas, apesar de serem seres de mundos diferentes. Mas o destino sabe mais de nós que nós sabemos dele. Brinca connosco de forma cruel, entrelaçando os nossos dias no quotidiano trivial, separando-nos depois como o dia e a noite separam o sol e a lua, fazendo com que estes amantes nunca se encontrem, mas para sempre se desejem. E assim foste de mim. Os bilhetes acabaram no momento de os comprar e a bilheteira fechou as portas deixando-me fora do show, fora de ti. Não é justo. Era a minha vez sabes? Depois dos outros todos. A minha vez. Mas a musica não toca mais. A nossa música sabes? Saiu das rádios e já só é ouvida por quem gosta mesmo, por quem é apreciador, escutada por quem lhe dá sentido, amada por quem a vive e revive como um momento perdido atrás. Algo que já não volta. A nossa música já não toca mais, apenas se tu ou eu a quisermos recordar, apenas se ainda tivermos tempo para parar e escutar um pouco, aí ela toca, nos nossos corações.


publicado por SigurHead às 18:49
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1 comentário:
De Anónimo a 10 de Janeiro de 2005 às 20:16
este foi o texto tipo declaração mais porreiro q já li. um dia escreve um parecido para o teu gajo.
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(mailto:)


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