Porque sabes que eu estou aqui. Porque eu sei que me sabes ler no silêncio.
Sábado, 14 de Fevereiro de 2004
The Hours
Filme delicado como uma poesia, forte e real como um vendaval. Cada objecto, cada peça de cena, cada fala, cada olhar um significado, uma estrofe. Interpretações divinas. Com o sofrimento os ponteiros arrastam-se de forma pesada como se quisessem prolongar a dor. Nestes momentos, as horas transformam-se numa eterna tortura, um martírio sem fim. Três épocas diferentes, três mulheres, duas características em comum: a dor e uma curiosa ligação com o romance Sra. Dalloway. Sem explicar os motivos por trás do sofrimento das três mulheres concentramo-nos na forma como estas tentam lidar com a dor. O filme flúi com uma elegância extrema, permite que uma cena situada em determinada época tenha continuidade, através dos gestos das personagens ou dos movimentos de câmara, em outro período de tempo. Além disso, há uma série de repetições temáticas que ligam as três narrativas. Três épocas, três beijos entre duas mulheres a diferença reside apenas na motivação de cada um: um beijo actua como oferta de conforto; outro funciona como pedido de consolo; e o terceiro simboliza um gesto de agradecimento. Filme de clima geralmente sombrio, em parte porque as manifestações de sofrimento e suicídio são mais perturbadoras quando são representadas fisicamente. Até que ponto vale a pena continuar a viver? Igualdade entre estar vivo e não estar. Não é em vão que o filme começa e acaba com a representação do suicídio de Virginia Woolf, que ocorreu em 1941. Assim como a própria escritora diz no filme que o seu romance Mrs. Dalloway tem que ter uma morte, As Horas lida com o fantasma do fim, da morte, do vazio e do suicídio como realidades inevitáveis num mundo incapaz de dar felicidade aos que nele vivem. As Horas é um filme sensível que compreende a dor da depressão. Enfrentar as horas uma batalha que se torna mais difícil com o passar do tempo.
"Tenho a sensação de que vou enlouquecer. Ouço vozes e não posso concentrar-me no trabalho. Lutei contra isto, mas não posso mais continuar a lutar. Devo-te toda a felicidade na vida. Tu foste perfeitamente bom. Não posso continuar a estragar a tua vida". "Não se encontra a paz fugindo a vida". "Eu luto sozinha contra a escuridão, na mais profunda escuridão, e só eu sei o que isso significa. Só eu posso entender a minha condição. Vives sob a ameaça da minha extinção. Eu também vivo sob esta ameaça". Olhar a vida de frente, olhá-la sempre de frente, e saber como ela é. Finalmente... sabê-lo. E amá-la pelo que ela é, e depois... Pô-la de lado. Entre nós sempre os anos. Os anos sempre. Sempre... o amor. Sempre... as horas.

Virginia Woolf


publicado por SigurHead às 13:55
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