Porque sabes que eu estou aqui. Porque eu sei que me sabes ler no silêncio.
Sábado, 8 de Maio de 2004
...
Antes escorrias palavras num papel que não era o teu, que esbarrava contigo e não te deixava seres tu. Apercebi-me disso quando falámos, quando deixou de ser só eu e tu a desenharmo-nos um ao outro à noite. Presentemente não sei... talvez estejas num mundo que não o meu, não sei... cá de onde te escrevo não te sinto há muito, isso eu sei! Sorrio na memória de conversas que traçámos em uma cidade que não esta. Como eu gostava daquelas noites em que apalavrávamos sentimentos, em que me ocupavas o vazio numa abundância de carinho que julgava não merecer. Agora tudo é diferente reencontro-me contigo num sorriso que permanece no meu rosto sempre que te tenho na memória.


publicado por SigurHead às 22:21
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bernardo soares, in "livro do desassossego"
"(...) se um dia pudesse adquirir um rasgo tão grande de expressão, que concentrasse toda a arte em mim, escreveria uma apoteose do sono. não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. o apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro..."


publicado por SigurHead às 20:56
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Oscar Wild
Nós não somos perfeitos, mas imperfeitos que precisam de amor.


publicado por SigurHead às 15:05
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Usamo-nos.
Concentro-me nas coisas que me contas, e assim calado, assim submisso, mastigo-te dentro de mim enquanto me apunhalas com delicadeza, deixando claro em cada promessa não cumprida que nada devo esperar além dessa máscara colorida... que me queres assim porque assim é que és, unicamente assim é que me queres e utilizas-me todos os dias. Usamo-nos honestamente assim, eu a digerir faminto o que o teu corpo rejeita e passo a passo afundo no charco que não sei se é o conhecimento de nós dois ou o imenso engano de ti e de mim. Depois afastamo-nos cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos a nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos. À medida que o dia avança e estrutura milímetro a milímetro uma harmonia que desaba em cada olhar ou toque de pele. Os vermes consomem porões que insistimos manter indevassáveis até que o não-feito que se acumulou durante todo esse tempo cresce como uma célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas indisfarçáveis na superfície da pele que não tocamos por covardia. Dentro de mim guardo sempre o teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até ao fim e ao fundo. Isso que nunca vivemos antes e talvez tenha inventado apenas para distrair-me nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes a buscar motivos para os sustos e as insónias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções nocturnas. Lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir afunda-me mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acaba aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui...


publicado por SigurHead às 14:56
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