Porque sabes que eu estou aqui. Porque eu sei que me sabes ler no silêncio.
Domingo, 6 de Março de 2005
...
Quando estás frente a mim, os teus olhos falam das coisas, de todas as coisas que flutuam entre nós, à deriva. E eu, quando os ouço, sou como um corpo náufrago na terrível dimensão do mar onde, em cada barco afundado, há uma morte silenciosa ou um prenúncio de um amor ainda por acontecer. Fui eu quem te deu as asas para que o mundo te coubesse nas mãos e o tempo fosse infinito. Houve dias em que me senti capaz de caminhar sobre as águas do teu próprio corpo, mas isso foi antes, quando ainda havia tempo nas nossas vidas. Quando discutíamos, era como se as minhas palavras se apagassem antes de tu as escutares. Quando nos zangávamos, era como se as minhas mãos esbofeteassem o teu rosto vezes sem fim. Partíamos, era sempre como se o fizéssemos pela última vez. Recordo o ouvido junto ao telemóvel, esperando que ele toque; o olhar perdido vendo o ecrã, aguardando por uma resposta. Mas só esperei porque houve um dia que deixaste de ligar, um outro que não voltaste a escrever. Pensaste ou vens cá ou perdes-me, mas aquilo que me disseste e por inerência aquilo que escutei foi, tão só está tudo bem. E eu quis acreditar que estava de facto tudo bem, pois acreditava sempre em ti, mesmo quando me mentias e eu sabia que o fazias. Achava sempre que duvidar era profanar-te; sabia que por trás de uma qualquer mentira há sempre uma verdade, mais não seja a verdade que é a inversão da mentira que alguém conta. Mas desta vez não. Pensei: não te quero perder. Por isso sozinho decidi transformar os teus desejos encobertos, de que tinhas vergonha, em realidades medonhas, compassadas no ritmo do tempo que nos fugia. Somos peças desencontradas de um puzzle que o tempo limou para que hoje fossemos um só pedaço de um plano de uma pintura triste, esquartejada a pinceladas por um artista febril. Passas com a mão em círculos pelo meu tronco e juras que estás feliz. Adormecemos enfim, comigo exausto por te sentir tão perto e já passou mais de um ano. Soterrados pelo tempo até reduzir os nossos corpos à ideia de estarmos juntos, segundos em que dizes amo-te e eu fico com medo de te desiludir. A partir dali, do alto da tua sacrílega perfeição, foi o meu corpo aquele que aceitaste. Dali, até ao último dos nossos dias horas minuto, momento, que desejávamos que fosse dali a muito tempo, como muito era ainda o tempo a haver para que um dia acordássemos, saíssemos do quarto e, mais tarde, fossemos apenas pó de volta ao pó, tu tinhas-me aceitado. Lembro-me de me ter perguntado: para sempre?


publicado por SigurHead às 10:01
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